Filipe Albuquerque

24H Daytona

🇺🇸

27 – 31 Janeiro

Daytona International Speedway

IMSA Weathertech Sportscar Championship

Wayne Taylor Racing

1 º Lugar

ROAR

Este ano, vou fazer o campeonato inteiro com a Wayne Taylor Racing (WTR). Depois de um 2020 que correu mesmo bem, recebi muitas propostas de várias equipas, entre elas a WTR. Eu não fazia ideia que estavam à procura de pilotos e este era um projecto ganhador e novo para a equipa, porque iam receber os Acura pela primeira vez. Pelo que me disseram, aconselharam-se nos paddocks e falaram com engenheiros, pilotos e equipas para chegarem até mim. Foi bom ter esta oportunidade.

Esta notícia, da minha ida para a WTR, foi recebida com algum espanto por parte de muitos que achavam que eu e o Ricky Taylor não teríamos uma boa relação depois do que se passou em 2017, em Daytona, na última volta da corrida. É verdade que tivemos as nossas guerras dentro de pista e eu continuo a achar que devia ter havido uma penalização mas condeno o diretor de prova e não o piloto. Na altura, a situação ficou resolvida, ele ligou-me e eu disse-lhe: “Vamos estar a lutar entre nós nos próximos 5 ou 10 anos, hoje foste tu que saíste por cima, amanhã vou ser eu.”  Nunca tive problemas com o Ricky Taylor e aceitei entrar para a WTR porque não ficou nada por resolver. Estas histórias são engraçadas porque o mundo é redondo e nunca devemos bater com portas. O respeito é o mais importante.

Nos últimos anos, sinto que o ano novo começa quando faço as malas para ir para o teste oficial das 24h de Daytona, o chamado Roar before the 24. Parti para Daytona com motivação máxima e com expectativa em relação ao andamento do carro e perceber como é que o campeonato iria equilibrar os carros. O Acura nunca tinha ganhado em Daytona, nunca tinha sequer ganhado uma corrida de resistência, havia receio de que o carro tivesse algum problema mecânico.

A verdade é que nem sempre andar mais rápido é tudo. Este ano, houve uma novidade na sessão de cronometrados que foi uma corrida de qualificação (a Motul Pole Award 100). Os resultados da corrida definiram a grelha de partida para as 24h Daytona. Essa corrida foi pensada para fazer o equilíbrio de performance.  Nem era mau de todo se não fôssemos o melhor carro porque a direcção de prova analisa a telemetria de todos os carros, vê onde é que cada um está a ganhar mais e vai equilibrando os carros com mais peso ou menos potência em função da informação recolhida. Mas nada mudou, não alteraram nada. Não nos demos por derrotados, e concentrámo-nos em ir à luta e fazer o melhor com o que tínhamos. Sabíamos que tínhamos de ser o melhor Acura em pista, tínhamos de nos destacar. O nosso primeiro adversário é a outra equipa com um carro igual.

24H DAYTONA

As provas nos EUA são diferentes das do WEC (Campeonato do Mundo de Resistência) ou do ELMS (Campeonato Europeu de Resistência). Há bandeiras amarelas com frequência por causa das situações em pista que são mais estreitas do que na Europa, mais antigas e não foram refeitas ou atualizadas.  A grelha tem cerca de 50 carros, há mais incidentes e as bandeiras amarelas regulares reagrupam os carros e fazem com que seja possível recuperar e discutir a corrida até ao fim. É frequente haver vários carros a disputar a vitória nos últimos minutos. 

A verdade é que nos EUA e na Europa a paixão é a mesma, a maneira como o público vive a corrida é que é diferente. Nos EUA, os paddocks são usados para as pessoas acamparem e levarem os motorhomes, até na parte de dentro da pista como em Daytona. As boxes estão todas abertas, não se pode esconder nada e os fãs estão muito próximos dos pilotos. Na Europa, o nível de fãs é tremendo, muitas pessoas acampam e passam uma semana a divertir-se em Le Mans mas há uma tendência a tornar-se tudo mais exclusivo e secreto apesar da organização dos campeonatos ter vindo a caminhar para a oferta de mais passes de paddock para os fãs verem de perto os pilotos e os carros. Tudo isto é cultural, há aspectos melhores e piores nos dois lados.

Nas corridas em tempos de pandemia, falta o brilho, o entusiasmo das pessoas na grelha de partida a desejarem-nos boa sorte. O ambiente que o público traz é especial. Mas assim que os treinos e a corrida começam, ficamos abstraídos de tudo.

Uma das primeiras pessoas que encontrei quando entrei no paddock foi o meu antigo engenheiro a quem eu desejei sorte. Tenho um grande respeito por ele e por toda a equipa onde corri nos últimos anos. Nunca sabemos o dia de amanhã, o hoje foi onde o destino  nos levou. Há muitos pilotos que não têm esta visão mas eu gosto de resolver as coisas, nunca vou para casa com alguma coisa para dizer, o que vão ouvir vai ser por mim. As coisas são resolvidas com frontalidade e sinceridade e é assim que se ganha respeito. O nome que tenho no paddock é esse respeito.

Daytona foi o meu primeiro contacto com a equipa e com colegas de equipa novos, o Ricky Taylor, o Alexander Rossi e o Hélio Castroneves. Quando há respeito uns pelos outros, quando cada piloto tem talento e não há egos pelo meio, automaticamente há sintonia, há amizade e admiração mútuas. Gosto muito de trazer isso para a equipa, esta maneira de estar. 

A equipa é  muito organizada, há espaço para os pilotos, a roupa está tratada, investem na imagem e comunicação da equipa, nos fisioterapeutas para que nada falte aos pilotos. A WTR investe onde outras equipas tentam poupar. A preparação do carro também é muito boa. 

Quando chego a uma equipa nova, meço a temperatura a toda a gente, vejo como é que as pessoas pensam e como me interpretam. Gosto de meter umas palavras pelo meio para apaziguar e relaxar o ambiente como “honey” e “sweetheart”, assim para quebrar o gelo. Estas pequenas coisas têm um objectivo, trago a minha maneira de ser para a equipa. Ao longo da semana estivemos sempre juntos, foi bom para nos conhecermos.

Quando arrancámos, percebemos que não tínhamos andamento puro para os Cadillac. Íamos estar a defender e a depender muito do andamento dos outros, ainda por cima eram 4 carros muito competitivos. Mas nas corridas de resistência nem sempre ganham os mais rápidos, ganham os que tiverem melhor estratégia, etc. Eu e os meus colegas de equipa estivemos grande parte da corrida a defender a posição, a jogar sempre com a estratégia, mas sem grande pressão porque tínhamos tempo para recuperar, exactamente como os outros carros pensaram também.

Nesta corrida consegui dormir imenso. Não somos super-heróis mas conseguimos maximizar as nossas capacidades. No início, entrei logo numa espiral de tentar melhorar em cada volta, fazer mais, tentar chegar para os outros com um carro inferior, dei tudo o que tinha nos primeiros 3 stints, e percebi logo que íamos precisar de sorte para conseguir ganhar. Dormi logo a seguir ao meu primeiro turno até à meia noite. Às 4h consegui dormir mais 4 horas até às 8h; depois só tinha de andar às 11h, deixei-me ficar na cama, relaxado. Os outros pilotos eram muito bons, todos andaram mesmo bem, senti-me descansado. Na fase final, estava fresco e carregado para aqueles turnos todos. Isto é o resultado de concentração e muita disciplina de sono: se é importante dormir, vamos dormir.

Quando acordo, visto-me e não gosto de ir logo para a box ver o meu colega de equipa a andar. Se estou a ver a corrida começo a ficar nervoso e sinto que é uma perda de energia para mim. Gosto que me chamem quando precisam de mim: chego meia hora antes, ponho o capacete e as luvas, entro e faço o que tenho a fazer. Não preciso de perceber o que é que se está a passar, só a informação necessária. Assim tiro o máximo de mim.

A disputa final pela vitória, com o Renger Van der Zande, foi intensa. Vi a coisa mal parada porque sabia que o Renger ia tentar uma ultrapassagem maluca e agressiva, sabia que ele estava à espera das últimas voltas, na fase final. Eu estava preparado, já sabia que ia acontecer e até que podíamos bater. Eu estava muito atento, com a concentração no máximo, e também sabia que a oportunidade dele só surgiria se ele estivesse muito próximo. Ele só poderia estar próximo se eu tivesse trânsito que me fizesse perder tempo. Uma primeira tentativa dele na curva 4 foi exatamente por causa de um GT e eu defendi. Depois consegui abrir um bocadinho e ganhar distância do Renger porque não apanhei trânsito e ganhei 2 segundos. Nesta fase final, o meu engenheiro disse-me no rádio: “come on, sweetheart, you can do it”. Chegámos àquele ponto em que ele não podia fazer nada, só podia acreditar em mim. Aquele pormenor foi o resultado apenas de uma semana de bonding.

Quando o Renger rebentou o pneu, percebi que tínhamos grandes chances de ganhar a corrida mas nesse momento fui o primeiro a dizer no rádio para manterem a calma, “isto não está acabado, ainda há muita coisa pela frente, temos mais seis ou sete voltas”. Eu  já estava a pensar que podia haver uma bandeira amarela, voltaríamos a reagrupar e tudo podia acontecer. Quando relaxamos é quando fazemos erros e só relaxo completamente quando vou a fundo na recta da meta. Só nesse momento é que aceito a vitória. Ao cruzar a meta, senti imensa alegria; é um clichê mas é mesmo felicidade plena depois de tantas horas e de uma corrida tão competitiva e difícil. O outro Acura ficou em 5.º a um minuto de nós.

Ofereci o relógio rolex winner Daytona ao Nuno Couceiro. Já tínhamos mais ou menos falado que este relógio seria para ele. Ele já me dizia: “Nunca mais ganhas isto? Estou a ver que fico sem rolex.” Sempre lhe respondi que tinha que ter fé. Deu-me um gosto enorme porque o Nuno fez muito pela minha carreira e pela minha vida. Quando o meu pai ficou doente, foi ele que decidiu agarrar-me, apostar na minha carreira e formou-me como pessoa. Isso não tem valor. Além do trabalho, tornámo-nos amigos e acabo por ser um irmão mais novo do Nuno e do Pedro. Uma vez, à noite, fui pôr a chupeta ao filho mais novo do Nuno, o João, isso é família. O Nuno e o Pedro encaminharam-me, disseram-me as verdades mais duras, estiveram sempre lá, cresci com eles.
Depois deste resultado, recebi uma mensagem com um convite para ir a Belém. Essa visita aconteceu a 4 de Fevereiro de 2020, juntamente com quem mais amo nesta vida, a minha mulher, Joana, e as minhas duas filhas, Carolina e Maria. Fui condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem do Mérito. Fiquei orgulhoso e sinto uma responsabilidade acrescida por honrar esta condecoração e o país. Nunca tinha pensado nisso até aquele momento.

Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary
Brian Cleary

Topo ↑