Filipe Albuquerque

24h de Le Mans


🇫🇷

21 – 22 Agosto

Circuit de Spa-Francorchamps

WEC FIA World Endurance Championship

United Autosports

18º Lugar

Ir para Le Mans com a United nos últimos 5 anos tem sido ainda mais especial. Temos ficado num Chateau muito bonito, a cerca de meia hora da pista. Sempre que chego lá, gosto de ver  a abertura dos portões para o palácio imponente, acho que é um local que me dá boas vibes e o ambiente certo para o fim-de-semana. Além de ser super confortável, consigo mesmo descansar quando venho da pista. Cheguei com mais malas do que o habitual porque a minha família chegava na semana seguinte, depois do teste. Deu-me um especial gosto preparar a mala das minhas filhas e até ir ao supermercado para ter as bolachas e os snacks preferidos delas à espera. Foi como se estivesse em casa.

Fui para Le Mans como vencedor das 24h. Por um lado, aliviou-me muito a pressão porque já ganhei esta corrida, por outro lado também queria defender esse título. Neste ano fomos uma semana antes porque, pela primeira vez, o pré-teste aconteceu no Domingo anterior à  corrida. Também fui um bocadinho mais cedo por causa de todas as burocracias e controlos covid, necessários para obter o passe para o evento e isso tudo demora mais tempo.

A United tinha 3 bons carros para a corrida. Nós, o #22, éramos candidatos à vitória não só por eu e o Phil Hanson termos ganho no ano passado mas também porque eu, o Phil e o Fabio tínhamos ganho Spa e Monza para o campeonato (WEC).  Era  a primeira vez do  Fabio em Le Mans e era importante ele andar bastante para conhecer a pista – se bem que só se aprende Le Mans durante a corrida.

Por incrível que pareça, não houve alterações na pista do ano passado para este ano. Fiz uma volta à pista a correr com o Fabio e é sempre muito especial cada volta que se faz em Le Mans. É difícil de explicar, apenas é algo que se sente lá. Não consigo dizer um sítio que gosto mais porque é o ritmo de toda a pista e as altas velocidades que tornam a volta tão especial mas claro que as curvas Porsche são as mais rápidas e técnicas. Gosto de andar em Le Mans durante o dia ou à noite, são desafios diferentes. À noite há a sensação de  que só eu e o engenheiro é que estamos acordados, estamos a fazer algo que gostamos, há uma sensação de solidão porque não vemos mais nada, apenas as curvas e não falamos tanto durante a noite. Na verdade, não há tanto a dizer porque a maior parte das equipas concorrentes só quer sobreviver à noite e praticamente só andam os melhores pilotos, os gentlemen drivers estão todos a dormir.

Ficámos contentes com o andamento do pré-teste, andámos constantemente nos 5 primeiros e sentimo-nos satisfeitos com esse andamento. Ao longo destes anos, o Phil tornou-se um piloto experiente e, acima disso, de confiança quando está atrás do volante. O Fabio adaptou-se bem à pista apesar de ter tido dois incidentes mas não faltava andamento a nenhum de nós os 3.

Entre o pré-teste e a corrida tivemos 2 dias livres. Fui buscar a minha família ao aeroporto e foi como se estivéssemos de férias em Le Mans. Estávamos instalados num alojamento com piscina, o tempo ajudou e parecia que estávamos desligados de tudo e não na semana das 24h de Le Mans. Foi bom ter a família pela primeira vez em Le Mans, ver a Carolina e a Maria a brincar com os filhos do Paul di Resta e a encontrar uma língua  própria para comunicar, foi muito bom voltar a ter a Joana comigo em Le Mans e ter esse apoio dela, poder falar com ela a cada momento do fim-de-semana. Durante os dias da corrida, fui estando com a minha família ao acordar e às refeições, sempre que conseguia. Foi bom ir à pista com a minha família toda pela primeira vez.

Na quarta, começaram os treinos. Começámos muito bem, com muito bom andamento nos treinos livres e as perspectivas mantinham-se boas para o fim-de-semana. Chegada a altura dos cronometrados, claramente que o nosso objectivo era qualificar entre os seis melhores para podermos disputar a hyperpole, uma sessão especial de cronometrados que define os primeiros 6 lugares da grelha de Le Mans. Até aqui tínhamos estado sempre no top 5 em todas as sessões. Quando fui para a primeira volta de qualificação apanhei trânsito, na segunda volta apanhei FCY. Neste momento não tínhamos uma única volta mas sabíamos que isto podia acontecer e tínhamos mais dois sets de pneus. Vim para a garagem, pus outro set de pneu novo e fiz uma nova tentativa de qualificar o carro na frente. Na primeira volta, apanhei trânsito de novo e, na segunda volta, apesar de ter boa distância para o próximo carro, saíram dois GTs das boxes  e  arruinaram-me a minha volta, a minha chance de qualificar na frente. Desta vez, não abortei a  volta porque precisávamos de uma volta de qualificação, embora longe daquilo que podíamos fazer. Vim para a garagem, tínhamos mais um set de pneus novos e o Phil (Hanson), que tinha andado bastante bem, fez uma última tentativa de qualificar o carro e, infelizmente, também ele teve trânsito.

Acabámos por qualificar em 12.º, fora do top 6 que daria oportunidade de ir à hyperpole e lutar pela pole position. Fiquei muito chateado por ter um carro fantástico e ter-me qualificado mal, não por culpa de ninguém mas sim pelas circunstâncias de muitos pilotos em pista mas o que me deixou mais chateado foi a falta de ética de pilotos que saíram das boxes e estragaram a volta lançada quando estavam na sua volta de saída das boxes. Facilmente podiam ter deixado passar quem vinha numa volta lançada. É sempre esse o ponto que me deixa frustrado, não é e nunca foi uma questão de ego mas sim uma questão de princípio, a minha maneira de estar nas pistas e na vida que é importar-me com os outros e não olhar só para o meu umbigo.

A partir daqui, estando fora da qualificação, concentrámo-nos mais no setup de corrida e, mais uma vez, nos treinos, estávamos com excelente andamento e voltámos a posicionar-nos nos cinco primeiros. Estava tudo bem encaminhado, tudo pronto para a corrida. Não só eu, mas também o Phil e o Fabio, todos estávamos com excelente andamento e  sabíamos que continuávamos a ser um dos grandes candidatos à vitória.

Fiz o arranque. Começou a chover mesmo antes do arranque, na pré-grelha. Chovia muito, estávamos a arrancar do meio do pelotão, que nunca é a situação ideal, portanto a minha prioridade era clara: não ter sequer um arranhão no carro, independentemente de perder ou  não tempo. Sabíamos que tínhamos um carro competitivo, três pilotos muito rápidos, uma boa equipa e que, principalmente, não iria chover mais. 

No primeiro turno, não me senti confortável com o carro, podia perder facilmente o controlo e houve muitos pilotos a fazer piões e a cair lá para trás, simplesmente para tentar ganhar cinco ou seis segundos mas a deitar muito a perder quando ainda faltavam mais de 23h até ao fim. Perdi muitas posições mas sabia que me estava a guardar. Quando vim para a primeira paragem, trocámos de pneus intermédios para slicks e, aí sim, com a pista a secar, comecei a impor o meu andamento. Comecei a recuperar o tempo e as posições que tinha perdido e, já no quarto turno, entreguei o carro ao meu colega de equipa Phil Hanson nos lugares da frente. A partir daí, entrei na minha rotina que é comer, dormir, vestir e andar outra vez.

Durante a corrida, tivemos algum azar com as slow zones, perdemos bastante tempo para o primeiro mas continuávamos a perseguir os líderes. Estávamos confortavelmente em 3.º, a cerca de um minuto e meio do primeiro. Quando ía para fazer o meu turno das 5h da manhã, uma volta antes do Fábio entrar para a box, os engenheiros viram que tivemos uma quebra de energia da bateria que era necessário reparar senão o carro iria parar. Aqui  começou o grande problema porque, em Le Mans, quando se coloca o carro na garagem, já dificilmente se consegue voltar para ganhar. Trocámos de alternador, trocámos a cablagem e, por fim, como nada estava resolvido, acabámos por trocar a bateria e resolvemos finalmente o problema. Com isto tudo, estivemos uma hora e meia parados. A partir daí, o carro estava óptimo mas o objectivo era terminar a corrida para conseguirmos os pontos do campeonato do mundo. Fiz os meus três turnos e não andei mais, deixei o carro ao Fabio que era rookie em Le Mans e ao Phil, para andarem no carro e ganharem mais experiência.

Fiquei desiludido mas não muito triste com este resultado. Sei bem o quão perfeita tem de ser uma corrida de 24 horas para a conseguir ganhar. Há muitas coisas que não dependem de nós e, este ano, apesar de termos outra vez boas hipóteses, o que nos tirou da corrida foi simplesmente uma bateria. Não foi uma falha mecânica, apenas foi uma peça que veio defeituosa. Nos três carros da United, todos tinham uma bateria nova para Le Mans.

Vi os verdadeiros merecedores da vitória a perder esta corrida com um problema electrónico na última volta, ainda pôs mais em perspectiva a minha tristeza. Eles, sim, são os pilotos e equipas que têm direito a estar tristes este ano.

Para o ano há mais Le Mans e eu vou lá estar de novo com a United.

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